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Meralgia Parestésica: Neuropatia Compressiva do Nervo Cutâneo Lateral da Coxa

Meralgia Parestésica: Neuropatia Compressiva do Nervo Cutâneo Lateral da Coxa


Resumo. Meralgia parestésica (MP) é o quadro resultante da compressão do nervo cutâneo lateral da coxa (NCLC) abaixo do ligamento inguinal, frequentemente associada a obesidade, diabetes e gravidez, podendo também ser desencadeada por roupas e cintos apertados, portabilidade de objetos na cintura, etc. O principais sintomas ocorrem na lateral da coxa com dor em queimação, adormecimento e aumento de sensibilidade, todos de forma constante ou intermitente. A ENMG permite confirmar o diagnóstico de MP e ainda excluir o diagnóstico de neuropatia periférica e radiculopatias. A MP é um transtorno benigno devendo- se no tratamento conservador focar na redução no peso, tratar o diabetes mellitus e reduzir a pressão externa sobre o nervo. Acupuntura pode ser utilizada para tratamento de pontos miofasciais, dor neuropática deve ser tratada de forma forma padrão e infiltração com corticosteróide pode ser utilizada para casos mais rebeldes. Cirurgia é raramente indicada excetuando-se os casos rebeldes e que apresentem bons resultados com a infiltração por corticosteróide.

O que é a meralgia parestésica. Meralgia vêm do grego onde meros significa coxa e algia significa dor. Na área médica o termo meralgia parestésica é reservado ao quadro resultante da compressão do nervo cutâneo lateral da coxa, abaixo do ligamento inguinal. O NCLC é um nervo sensitivo, nasce das raízes de L2 e L3 no medula lombar, atravessa o plexo lombossacro na pelve, emerge abaixo do ligamento inguinal e faz a inervação sensitiva da lateral da coxa (figura 1).

A principais associações da MP são obesidade, diabetes e gravidez. Pressão externa sobre o NCLC pode também originar-se de roupas e cintos apertados, portar objetos na cintura (revolver por exemplo), atividade física com aumento da pressão externa sobre a virilha etc.

Diagnóstico diferencial. Diagnóstico refere-se aos meios clínicos e exames complementares que possam confirmar a neuropatia. Os sintomas ocorrem em geral unilateralmente em toda ou em parte da área do NCLC (figura 1). O principal sintoma é uma dor em queimação na lateral da coxa, adormecimento e aumento de sensibilidade no local. Os sintomas podem ser constantes ou intermitentes, piorando com postura de pé, caminhada,  mudanças na posição no leito e melhorando com com a flexão do joelho.

O diagnóstico em geral oferece pouca dificuldade, o próprio paciente aponta a região afetada e o médico ali encontra uma área de adormecimento, coincidente com o território do NCLC, neste local, também pode haver uma área de alopécia (perda de pelo). A dor relacionada a ponto gatilho miofascial, principalmente aquela do músculo vasto lateral (fig 3), pode coincidir com a área da MP, devendo ser diagnosticada clinicamente, para se proceder o agulhamento. A ENMG é mais indicada nos casos de maior complexidade como por exemplo as radiculopatías de L2 e L3 (fig 4), neuropatia femoral e plexopatia lombosacra. Alguns pacientes vão necessitar de RNM para excluir radiculopatia L2 e/ou L3. Por último salientamos que a MP é uma neuropatia compressiva, devendo ser separada das lesões (raras) do NCLC que ocorrem na região da virilha: traumatismo, transplante renal, cirurgia de hérnia inguinal, injeções locais, ferimentos penetrantes etc..

Como parte da ENMG da MP, raros pacientes vão necessitar de um estudo específico do NCLC, o qual diferentemente da maioria dos nervos, é estudado com eletrodos de agulha (monopolar), em função de sua maior profundidade. Este exame, enquanto uma técnica especial e não sendo executado rotineiramente, traz custos adicionais relativamente ao exame comum.

Tratamento e prognóstico. Primeiramente é importante concientizar o paciente que a MP não é uma doença grave, e que a maioria dos casos têm boa resolução com tratamento conservador (não cirúrgico). Para tal é importante a redução no peso, tratamento do diabetes e diminuição da pressão sobre o nervo na cintura, utilizando-se roupas  folgadas, melhorias na portabilidade (revólver) etc. Estas medidas em geral produzem bons resultados. Na gravidez os sintomas em geral melhoram após o parto, podendo haver recidiva com uma gravidez subsequente. Acupuntura e agulhamentos podem ser utilizados para tratamento de pontos miofasciais na região do nervo,  o que não é raro (figura 3). A dor em alguns casos pode se tornar severa, e diante desta situação, o tratamento da dor neuropática segue a regra geral, incluindo aqui o tratamento tópico com capsaicina ou emplastro de lidocaína.

Os casos mais rebeldes, podem ser tratados com uma infiltração de corticosteróide a nível do ligamento inguinal. Cirurgia é indicada numa minoria de casos rebeldes (10% dos casos), e que apresentaram boa melhora clínica após a infiltração. Salientamos que não existem evidências nem consenso específico na literatura sobre a eficácia dos diferentes tratamentos da MP. Desta forma é importante que seja enfatizado as diferentes etapas do tratamento conservador antes de tratamentos invasivos

Referências.

Amato AA, Russel JA. Focal neuropathies of Lower extremities: Radiculopathies, plexopathies and mononeuropaties. In: Neuromuscular disorders, Ebook kindle 2nd Ed, McGraw Hill, New York (USA) 2015: chapter24

Katirji B and Wilbourn AJ. Mononeuropathies of lower limb. In: Dick PJ, Thomas PK. Peripheral Neuropathy 4th ed, Elsevier-Saunders, Philadelphia (USA) 2005: pp 1463-1487